Barros Basto

Artur Carlos de Barros Basto nasceu a 18 de Dezembro de 1887 na freguesia da Madalena, no concelho de Amarante, tendo falecido a 8 de Março de 1961, na cidade do Porto. A sua carreira militar desenvolveu-se entre 14-8-1906 a 24-4-1937. Barros Basto destacou-se pela sua audácia e intrepidez durante a I Guerra Mundial, comandando um Batalhão do Corpo Expedicionário Português, e sendo promovido a Capitão. Por tais feitos foi condecorado com as Medalhas de Cobre e de Prata de Bom Comportamento, a Medalha da Vitória, a Cruz de Guerra, a Oficial da Ordem Militar de Avis e da Ordem de Cristo (com palma) e a fourragére da Ordem da Torre-e-Espada.

Foi o grande impulsionador e fundador da Comunidade Israelita do Porto e da edificação da Sinagoga Kadoorie, uma vez que detinha raízes genealógicas judaicas, mas também um escritor e um filósofo. Tal como Aristides de Sousa Mendes, o Capitão Barros Basto ajudou ao retorno dos cripto judeus ao Judaísmo e dos refugiados judeus na Segunda Guerra Mundial e do Holocausto.

Em jovem, através do seu avô que se encontrava no leito de morte soube dos seus antepassados Judeus. Contudo, a sua família já não mantinha os preceitos judaicos e este apenas se deparou com a existência de Judeus em Portugal, aquando da leitura de um artigo de jornal sobre a inauguração da sinagoga Shaaré Tikya em Lisboa. A sua dedicação e empenho levaram a que anos mais tarde iniciasse a sua vida militar e a pretensão de vir a dirigir a sinagoga de Lisboa. Em 1910, a quando da implantação da República, Barros Basto foi o militar que hasteou a bandeira republicana na cidade do Porto. O Capitão era multifacetado e após ter aprendido hebraico foi viver durante um período de tempo para Marrocos onde iniciou formalmente o processo de conversão ao Judaísmo. Com o processo de conversão concluído, Barros Basto passou a chamar-se Abraham Israel Ben-Rosh.

No seu regresso a Portugal, casa-se com Lea Israel Montero Azancot da Comunidade Israelita de Lisboa, de quem teve dois filhos. Dos vários netos e bisnetos destacam-se a sua neta Isabel Ferreira Lopes, atual Vice- presidente da Comunidade Israelita do Porto e a actriz Daniela Ruah. Em 1921, volta para o Porto e apercebe-se de que na cidade havia menos de vinte judeus que não possuíam uma organização estruturada e que se tinham de deslocar a Lisboa para assistir aos preceitos religiosos necessários. Ao deparar-se com essa realidade, tomou a iniciativa de construir uma sinagoga na cidade portuense e de registar oficialmente no Governo Civil do Porto, a Comunidade Israelita do Porto e o Centro Teológico Israelita. Porém, o atual edifício da sinagoga fora construído anos mais tarde e à medida que o tempo passava, iam aparecendo cada vez mais pessoas a afirmarem as suas descendências judaicas e a sua integração na sinagoga. Barros Bastos e o Comité de Londres constataram a veracidade originária destes cripto judeus.

Na Ata nº 68 da Direção (Maâmad) da Comunidade Israelita do Porto ficou deliberado que seria aceite na congregação qualquer indivíduo que “provasse absolutamente a sua origem judaica”. Esta situação propiciou a que Barros Basto procura-se mais pessoas interessadas em voltar ao Judaísmo. As suas deslocações despertaram a atenção de algumas comunidades judaicas, como a Comunidade de Judeus Portugueses em Londres, fundadora do “Portuguese Marranos Committee”, organização que pretendia ajudar todos aqueles que queriam voltar ao Judaísmo.

Nos anos 30, com a instauração do regime Barros Basto é conotado como um opositor e perseguido pelo exército, que o coloca em locais cada vez mais distantes da cidade do Porto, na tentativa de dissuadi-lo da Sinagoga e da Comunidade. Em 1937, o Capitão é julgado pelo Conselho Superior de Disciplina do Exército e afastado da instituição. Todavia, em 1938, Barros Basto assiste à inauguração da sinagoga Kadoorie, no Porto. Atualmente, a sinagoga é a sede da Comunidade Israelita do Porto e ainda mantém as suas funções religiosas. Pelo que, recentemente, assinou um protocolo com o Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos com o fim de disponibilizar documentos de refugiados que, com ajuda do Capitão reconstruíram as suas vidas na cidade nortenha. O Museu Judaico de Belmonte é também palco de uma sentida homenagem ao Capitão, uma vez que é das poucas cidades portuguesas onde prevalece o Judaísmo.

Faleceu em 1961, no Porto, mas conforme o seu desejo é sepultado no cemitério de Amarante, envergando a farda com que serviu a sua pátria. Já, no leito da sua morte exclamou que um dia lhe seria restabelecida a justiça pelo seu afastamento.

Em 2012, 50 anos após a sua morte verificou-se esse facto, uma vez que no seguimento de uma petição apresentada na Assembleia da República, pela sua neta Isabel Ferreira Lopes, a 31 de Outubro de 2011, o nome de Barros Basto foi reabilitado a 29 de Fevereiro de 2012. A petição foi aprovada por unanimidade por todos os partidos políticos, considerando que o Capitão Barros Basto foi vítima de segregação político-religiosa pelo facto de ser judeu.

A Resolução da Assembleia da República n.º119/2012, de 10-08, lembrou ao governo o procedimento de uma reintegração simbólica de Barros Basto no Exército, a título póstumo, “em categoria nunca inferior àquela a que o militar em causa teria direito se sobre o mesmo não tivesse sido instaurado o processo que levou ao seu afastamento”.