Encontro entre o Sagrado e o Profano

Olha-se Amarante – isto é particularmente verdade a certas horas do dia – e tem-se uma impressão muito nítida de que é o religioso que infunde caráter à cidade. Talvez a dimensão que ganha, no conjunto urbano, o monumental convento de São Gonçalo. Talvez a proximidade do rio e da serra, habitat das divindades de homens de outras eras. Talvez as duas coisas juntas. Seja o que for, a ideia que se colhe é mesmo essa: estamos num lugar que se define pelo religioso. A história não desmente esta impressão, antes a confirma. Amarante, por assim dizer, nasce quando chega a esse local um pregador com forma de santo.

Estávamos então no séc. XIII. O pregador enamora-se do lugar, constrói uma ermida e começa a criar condições para ali nascer um povoado. Começa por construir uma ponte sobre o Tâmega (não ainda a que o General Silveira defenderia heroicamente séculos mais tarde), que induz a fixação de pessoas. Depois, a própria fama de santidade de Gonçalo vai atraindo sempre mais povo. O elemento religioso está pois bem presente na génese da atual cidade. Algum caminho de Santiago, vindo do sul, passaria próximo de Amarante, e os peregrinos, conhecendo a fama do santo pregador, não resistiriam a fazer um pequeno desvio para o ver e ouvir em pessoa.

Alguns acabariam por se fixar por ali definitivamente. Entretanto, por toda a região, numerosos mosteiros e conventos vão surgindo e funcionando como centros difusores de cultura e incentivadores de povoamento. De novo, o elemento religioso a contribuir para o engrandecimento do concelho.

Muito mais tarde, as freiras de Santa Clara desenvolvem uma doçaria que ainda hoje é possível de encontrar na cidade, embora já fora do âmbito conventual. E as mais importantes manifestações coletivas – as festas e romarias – têm ainda que ver com a religião. O religioso, sempre o religioso a marcar e a individualizar Amarante.

Não se pode, contudo falar em religioso, sem abordar o profano. Este binómio tem em Amarante uma presença notória, impressa fortemente nas manifestações culturais. Conseguimos observar os rituais profanos nas festas e romarias, na gastronomia, nos contos e nas canções populares. Existe em Amarante uma riqueza popular muito caraterística, a que importa dar destaque.

Desde as cantigas e os versos a S. Gonçalo, pontuados pelos mitos do Santo casamenteiro, ao ritual do puxar da corda para que o Santo ajude a encontrar um bom marido, ao doce fálico presente nas romarias, muitos são os rituais que aproximam o religioso e o profano em Amarante e que tem o seu expoente máximo nas festas da cidade, no primeiro fim de semana de junho.