O Diabo e a Diaba

Reza a história que até ao ano de 1809 a sacristia do convento dominicano de S. Gonçalo (joia da arquitetura seiscentista portuguesa) albergava um casal de mafarricos oriundos do averno que, apesar da sua origem, granjeavam de larga simpatia por parte dos monges - que deles se serviam para atemorizar os confessandos – bem como das damas e dos cavalheiros que com eles já se haviam familiarizado.

Com caracteres sexuais fortemente vincados e de aspeto pagão, crê-se que foram obra de antigos Brâmanes (grupo religioso indiano com inclinação pelas superstições aborígenes), trazidos das longínquas paragens do Império, que então se estendia à Índia, por mercadores lusitanos e que, juntos, simbolizavam a força da natureza.

Quando, em abril de 1809, os soldados do General Loison incendiaram e saquearam Amarante, nas segundas Invasões Francesas, desfilaram-nos pelas ruas da vila, com vestes sacerdotais e queimaram-nos.

Expulsos os franceses, os frades dominicanos, desgostosos com o desaparecimento dos seus Diabos, rapidamente trataram de os substituir, encarregando o artífice António Ferreira de Carvalho, que morava para as bandas da Rua do Seixedo, próximo da Fonte do Bairro do Rego, de tal tarefa. Este, rapidamente partiu para o alto de Pidre onde, com dois ajudantes, escolheu e abateu um grande castanheiro, reproduzindo, o mais fielmente possível, uma réplica do casal, furando-lhes, por ordem do Prior do convento, a cabeça, onde pousassem a cruz e a umbela. O resultado foi de tal modo satisfatório que o mestre entalhador passou a ser conhecido pela alcunha de Ferreira dos Diabos.

Escuros como breu, são ambos de ambos de tamanho próximo ao do ser humano e estão sentados sobre uma pequena base cilíndrica, ostentando na cabeça um par de cornos definidores da sua proveniência e intenções. Com os braços abertos, têm entre os dedos de cada mão uma bola.

O Diabo veste uma pequena tanga recortada e ornada a vermelho. Tem a boca cerrada por lábios grossos e vermelhos, ao contrário da Diaba que, ostentando um colar ao pescoço tem de forma provocadora, a língua de fora. Traja um apertado colete de mangas, em tons de verde que lhe faz sobressair o voluptuoso busto, de onde sai uma espécie de fralda de camisa debruada a vermelho. Os pés, de forma inumana, são uma espécie de garras com quatro dedos, abraçando, também aqui, umas bolas.

Um dia, já com o casal de arrenegados no local dos seus primogénitos, O Esperançoso El Rei D. Pedro V (reinou de 1853 a 1861), de visita à vila resolveu ir prestar culto a S. Gonçalo e qual não foi o seu espanto e indignação ao dar de caras com o casal de mafarricos. De imediato mandou retirar as duas figuras de tão sagrado lugar, passando estas a deambular pelo claustro. Quando em 1870 o Arcebispo de Braga, D. José Joaquim de Moura, que tutelava a Diocese de Amarante, soube da existência de um casal de diabos num dos seus templos, ainda por cima fortemente sexualizados, ordenou que fossem queimados, por achar nefasta a convivência com os santos. Porém, o Prior do convento, inconformado, limitou-se a mandá-los mutilar nos órgãos sexuais, entregando-os depois à Câmara. Arredados do seu poiso passaram a deambular por um qualquer canto do convento, até que despertaram o interesse de um cavalheiro inglês – Alberto Sandeman – que se encontrava de visita ao templo. Com a ajuda da Sra. Rosa Folhadella, ou Rosa d’Amarante, uma muito conhecida e bem relacionada dama, que presenteou com um corte de vestido de seda, prontamente os adquiriu com o intuito de promover os vinhos que comercializava, por três libas de ouro - treze mil e quinhentos reis – tratando de os encaixotar e de providenciar transporte para o seu escritório em St. Swithin’s Lane, na Grã-Bretanha.

Não se julgue porém que foi fácil retirar as duas “divindades” de Amarante! Assim que as gentes amarantinas souberam, juntaram-se e, mesmo elucidadas por um escritor conterrâneo de que iam uns diabos de madeira mas ficavam muitos outros de carne e osso, não arredaram pé, opondo-se à ida. Com José Pinto da Pinha, exemplar patriota e chefe de família, à cabeça, redigiram uma petição ao Juiz de Paz para que não permitisse a saída do casal de diabos de Amarante. Tendo o Juiz deferido a petição, nomeou José da Pinha deu depositário. De imediato este, ajudado por José Gonçalves, tratou de por a salvo o precioso caixote num velho forno do Convento de Santa Clara.

Perante o sucedido, Alberto Sandeman reclamou a posse do casal de arrenegados ao Governador Civil do Distrito do Porto, tendo conseguido que, por ordem do Administrador do Distrito, o Administrador do concelho de Amarante, Visconde de Tardinhade, intimasse José da Pinha a apresentar o caixote com os diabos, do qual era fiel depositário. Desculpando-se com a natureza satânica dos mesmos, tentou dizer que tinham desaparecido, prontificando-se a pagar as três libas ao proprietário ou a ir para a prisão como infiel depositário. Tal argumentação não resultou, vendo-se José da Pinha obrigado a restituir os diabos ao legítimo proprietário. A caixa, sob a proteção de José da Pinha e de um piquete de caçadores de S. João da pesqueira, destacado para o efeito, por Jorge de Soveral, tomou de imediato a direção da estação dos caminhos de ferro de Caíde, de onde partiram para Londres.

Chegados à grande cidade fizeram furor pois, por aquelas paragens, jamais se tinha visto uma “diaba”, passando a figurar em várias exposições, como chamariz de visitantes e compradores. Em 1889, terão sido vistos pelos cerca de trinta e dois milhões de visitantes que percorreram a Exposição Universal de Paris e visitaram o salão de vinhos com que a Casa Sandeman se fez representar.

Entretanto, e por terras lusitanas, os amarantinos ainda não se tinham conformado com a forçada emigração dos seus diabos de estimação, clamando pela sua restituição. Foi Lago Cerqueira, então Ministro dos Negócios Estrangeiros, que conseguiu que Alberto Sandeman devolvesse do cativeiro o casal, provocando o delírio dos amarantinos. De barco até Leixões, de carro até à estação de Campanhã e de carruagem especial até à Livração, onde receberam o primeiro banho de multidão, foram transferidos para a linha do vale do Tâmega. Ao chegarem a Amarante foram recebidos pela banda de música, pelas entidades públicas, particulares e por uma multidão exuberante. Duas juntas de bois engalanadas com um manto vermelho, de onde só despontavam os cornos e os olhos dos bichos, esperavam o casal de “divindades”. Formado o cortejo, encabeçado pelos carros de bois que transportavam os chifrudos, seguidos pela edilidade, pela banda de música e pela população de onde sobressaíam os mais jovens, que mascarados, saltavam que nem diabos por entre os demais. A encimar o cortejo seguiam diversas charangas e uma multidão montada nas burras e jericas de Canadelo. O cortejo percorreu as ruas da vila ao som de “Aí vêm os diabos! Lá vêm eles!”, durando as festas até altas horas da madrugada.

Durante bastante tempo e ainda que um pouco às escondidas, o Diabo e a Diaba continuaram a gozar de uma certa veneração, tanto que, no dia 24 de agosto, dia em que “o Diabo anda à solta”, como vulgarmente o apelidam, as gentes da terra não trabalhavam, depositando oferendas na cabeça do Diabo e da sua senhora.

Hoje, os diabos estão expostos no Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso onde, que nem duas sentinelas das trevas, sempre prontos a espantar e assustar os mais incautos, velam pelas obras de Amadeo, António Carneiro, Guilherme Camarinha, Sarah Afonso, Júlio Resende, Jaime Isidoro, Vieira da Silva, Nadir Afonso e demais autores.